Alice Neel, uma “coleccionadora de almas” em Serralves
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Beautifully Imperfect, em Serralves até Janeiro de 2027, presta tributo à artista norte-americana, que deu visibilidade a corpos marginalizados e pintou as lutas e transformações do século
Poderíamos começar pela mãe exausta, internada numa ala psiquiátrica com várias outras mulheres cansadas, desesperadas, sem chão. Ou pelo retrato inacabado do jovem afro-americano, forçado a colocar toda a sua vida em pausa, quem sabe ad aeternum, para combater numa guerra que não pediu, a do Vietname. Mas comecemos pelo início, comecemos pelo auto-retrato.
É a primeira obra que vemos ao entrarmos na Ala Siza do Museu de Serralves, no Porto: Alice Neel aos 80 anos, nua, sentada numa cadeira azul e branca com um pincel numa mão e um pano na outra. O olhar, sério e fixado em nós, os visitantes, não parece denunciar timidez ou desconforto. Este não é o suposto corpo ideal que a televisão, a publicidade, as redes sociais e os nossos intolerantes padrões de beleza propagandeiam. É, tão-somente, um corpo real, que transporta consigo uma biografia intensa e uma sensibilidade única.
Daniel Dias (texto)










