“Nós já estávamos aqui”: como o Volta escancarou a pobreza invisível do país
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
Autarcas falam em “drama social” e pedem fim do programa. Investigadores vêem o reflexo de uma sociedade desigual e polarizada. Quantas voltas dá uma vida que se ampara em garrafas de dez cêntimos?
Todos os dias, mal a madrugada desponta, António sai de casa e embrenha-se na escuridão da cidade. Há tempos, um sobrinho falou-lhe do programa Volta e incentivou-o a apanhar garrafas deitadas ao lixo para amealhar uns trocos. Ele rejeitou a ideia, antecipando a vergonha colada à pele. Mas a curta pensão por invalidez já não cobria a extensa lista de medicação diária, mesmo espremendo os gastos até ao osso, e António rendeu-se. No lixo alheio, encontrou o seu amparo: “Estou a passar uma fase difícil. Com isto, consigo comprar os medicamentos e alguma coisa para comer.”
Mariana Correia Pinto (texto)
domingo, 4 de outubro de 2026
Brasileiros acordam de madrugada para votar no Porto e enfrentam labirinto do ISEP
Brasileiros acordam de madrugada para votar no Porto e enfrentam labirinto do ISEP
Neste domingo, 4 de outubro, dia do primeiro turno das eleições gerais brasileiras, houve quem viesse de muito mais longe para exercer o direito ao voto. Gleize Pereira, 48, trabalha em Genebra, na Suíça, e saiu de lá na quinta-feira para estar pronta para votar. Às 6h da manhã já estava de pé e, às 7h50, pegou o ônibus em Albergaria-a-Velha, cidade no distrito de Aveiro, ao sul do Porto. Vanessa Vale percorreu 40 quilômetros desde Lousada, a leste do Porto.
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
Porto limpa e veda viaduto onde dormiam pessoas sem abrigo. “Agora falta-me tudo”
Há sete anos, Ernesto encontrou o tecto possível debaixo de um viaduto do Porto. Durante muito tempo, o espaço foi só dele e de uma “vizinha” cuja cama era um pedaço de cartão estendido ao lado do seu. Enganavam a dor de não ter casa com a companhia um do outro e de animais recolhidos na rua, enquanto cultivavam um terreno baldio ali ao lado. Um dia, porém, as escavadoras destruíram, sem aviso, o jardim do qual se orgulhavam, abrindo espaço para a construção de um prédio, agora em vias de ser concluído.
terça-feira, 22 de setembro de 2026
Andava eu sem ter onde cair vivo Fui procurar abrigo nas frases estudadas do senhor doutor Ai de mim não era nada daquilo que eu queria Ninguém se compreendia e eu vi que a coisa ia de mal a pior Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar
Andava eu sozinho a tremer de frio
Fui procurar calor e ternura nos braços de uma mulher
Mas esqueci-me de lhe dar também um pouco de atenção
E a minha solidão não me largou da mão nem um minuto sequer
Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar
Se queres ver o Mundo inteiro à tua altura
Tens de olhar para fora, sem esqueceres que dentro é que é o teu lugar
E se às duas por três vires que perdeste o balanço
Não penses em descanso, está ao teu alcance, tens de o reencontrar
Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar
Compositor: Jorge Palma
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Durante o cancro continua a ser preciso cortar a barba e escolher o soutien certo. “Cuidarmos de nós é uma forma de cura”
Francisco, Inês e Sandra são três dos mais de 25 mil utentes no país acompanhados pela Liga Portuguesa Contra o Cancro. OMS alerta que uma em cada cinco pessoas pode vir a ter cancro.
Durante o cancro continua a ser preciso cortar a barba e escolher o soutien certo. “Cuidarmos de nós é uma forma de cura”
Os olhares flutuam entre o telemóvel, o tecto, o grande ecrã que vai contando os números das senhas. Às vezes demoram-se por segundos nos rostos das pessoas que também esperam naquela sala, com cadeiras pretas todas viradas para a mesma parede, do Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto. Francisco Vilhena, 45 anos, já perdeu a conta às vezes a que ali voltou neste último ano e meio. Apesar de ser Agosto, lá fora, o dia é chuvoso e o Sol está encoberto. Do lado de dentro, há janelas abertas que deixam entrar alguma da brisa matinal. Francisco está a poucas horas de saber o resultado da sua última ressonância. Depois de em Novembro o corpo se ter ressentido com os efeitos da quimioterapia, a equipa médica teve de pôr um travão aos ciclos mensais do tratamento. Em Abril último, mais de um ano após retirar um tumor no cérebro, “o cancro voltou a aparecer” e foi preciso reiniciar a quimioterapia. O diagnóstico: glioblastoma de grau IV, um cancro cerebral sem cura “muito agressivo e grave”, assim o descreveram os médicos em Fevereiro de 2025.
Daniela Carmo (texto)
Os Sigur Rós fizeram do Coliseu do Porto uma supernova em câmara lenta.
Com a Sinfonietta de Lisboa e o Coro Ricercare, os islandeses transformaram o Coliseu do Porto num espaço de silêncio, luz e explosão sonora, levando a sua música atmosférica para outra dimensão.
Os Sigur Rós fizeram do Coliseu do Porto uma supernova em câmara lenta
Ainda havia burburinho de pessoas a sentarem-se nas cadeiras do hemiciclo do Coliseu do Porto quando as luzes se apagaram, pelas 21h deste domingo. Ouviu-se um "shiuuu" na plateia e, em vez de aplausos, os primeiros acordes do concerto de Sigur Rós foram recebidos com um silêncio espacial. Era Blóðberg, o single de Átta, o disco mais recente da banda islandesa, lançado em 2023. Um crescendo lento das cordas da Orquestra Sinfonietta de Lisboa, magicamente orquestrado pelo maestro e compositor britânico Robert Ames, ia sendo preenchido, espaçadamente, pela voz etérea do vocalista Jónsi Birgisson — ficou logo claro que, com Sigur Rós, quase nada acontece de repente.
Catarina Pinho (texto)
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