Há trabalhos e trabalhos. Não ando nisto há muitos anos, mas já percebi que
na vida de fotojornalista podem aparecer trabalhos muitos chatos de se fazer,
pouco estimulantes, por muito que lhes tentemos dar a volta não saem
fotografias das quais nos orgulhemos propriamente.
Depois, há aquele telefonema em que, do outro lado, o interlocutor nos
pergunta: “Quer passar o mês inteiro a fotografar os locais mais emblemáticos
do país?”. Assim? Um mês inteiro só para mim? O meu carro e o prazer de
conduzir? A minha máquina e a paixão por disparar em todas as direções? “Quando
começo?”.
Há trabalhos e trabalhos. Depois de fazer fotografias de lugares mágicos e
inspiradores (o Porto, sempre, o Gerês não turístico, as pessoas na sombra
alentejana, os caminhos de perdição por Trás-os-Montes), eu só penso como a
vida me sorri, me permite dizer que o meu trabalho, hoje, é fotografar os
lugares mais bonitos de Portugal. À minha maneira. Um momento para pôr na pausa
as semanas loucas e ganhar balanço para o que aí vem. O mundo está lá fora à
minha espera, mas é em casa que o ar é mais puro e que a locomotiva encontra os
trilhos.
Posso dizer que
conheço os quatro cantos deste retângulo, por andanças anteriores, mas a
liberdade que este me deu não tem preço nem descrição. Sou inspirado todos os
dias por um país longe da crise dos jornais, onde a vida do dia a dia é levada
com tranquilidade. As pessoas sorriem na rua, dizem-me que “dali é que se vê
bem a cidade, boa tarde, continuação”. E eu continuo.
O país das maravilhas está aqui, ao virar da esquina, na lente da máquina, no
horizonte do meu olhar. E é de uma beleza maior que os bancos, os ministros,
maior que as minhas pernas, pesadas de tanto caminhar, maior que as noites
quentes da planície alentejana.
Há trabalhos e trabalhos e este é daqueles que nunca há de acabar.
Daniel Rodrigues